O Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul reúne paisagens que ajudam a contar uma parte importante da história geológica do planeta. Cânions, paredões de rocha, cachoeiras, paleotocas, dunas, rios e áreas costeiras formam um território que se estende entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul.
Em abril de 2022, a região recebeu o reconhecimento de Geoparque Mundial da UNESCO. A chancela confirmou sua relevância internacional, mas também ampliou o compromisso com a conservação, a educação e o desenvolvimento sustentável das comunidades locais.
Para quem visita destinos como Praia Grande, Cambará do Sul e Torres, compreender esse contexto transforma a experiência. A paisagem deixa de ser apenas um cenário e passa a revelar acontecimentos que começaram milhões de anos antes da presença humana.

O que é o Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul?
Um geoparque é um território que reúne locais de reconhecida importância geológica, chamados de geossítios. Esses espaços ajudam a explicar a formação da Terra, as mudanças na paisagem e a relação construída entre natureza, cultura e sociedade.
No entanto, o geoparque não é um parque fechado ou uma única unidade de conservação. Também não significa que todo o seu território tenha as mesmas regras de acesso. Dentro dele existem parques nacionais, propriedades particulares, áreas urbanas, comunidades rurais e outros espaços com formas próprias de gestão.
A proposta consiste em integrar conservação, pesquisa, educação e turismo responsável. Dessa forma, o patrimônio natural pode gerar conhecimento e oportunidades econômicas sem perder suas características essenciais.
O reconhecimento da UNESCO também não substitui a legislação ambiental brasileira. Os atrativos inseridos em unidades de conservação, por exemplo, continuam sujeitos às normas específicas de cada parque.
Onde fica o geoparque reconhecido pela UNESCO?
O território ocupa aproximadamente 2.830 quilômetros quadrados e abrange sete municípios. Em Santa Catarina, fazem parte Praia Grande, Jacinto Machado, Timbé do Sul e Morro Grande. No Rio Grande do Sul, estão Cambará do Sul, Mampituba e Torres.
Essa distribuição conecta a Serra Geral à Planície Costeira. Por isso, o visitante encontra grandes variações de relevo, altitude, vegetação e paisagem em distâncias relativamente curtas.
Na parte serrana, destacam-se os planaltos, os vales profundos e os paredões dos cânions. À medida que o relevo se aproxima do litoral, surgem rios, lagoas, dunas, restingas e formações rochosas junto ao mar.
Segundo a UNESCO, essa combinação permite compreender tanto a formação das escarpas da Serra Geral quanto a evolução da planície costeira do Sul do Brasil.

Como os cânions dessa região foram formados?
A história geológica local está relacionada à antiga Bacia do Paraná e à separação do supercontinente Gondwana. Há cerca de 150 milhões de anos, intensas atividades vulcânicas acompanharam o processo de abertura do Oceano Atlântico Sul.
Grandes derrames de lava cobriram extensas áreas. Depois de resfriado, esse material formou sucessivas camadas de rochas vulcânicas, especialmente basaltos, que hoje aparecem nos paredões e afloramentos da Serra Geral.
Ao longo de milhões de anos, a água aproveitou falhas e fraturas existentes nessas rochas. Rios e outros agentes erosivos aprofundaram os vales até formar as grandes escarpas observadas atualmente.
Esse processo explica por que alguns cânions possuem paredes quase verticais e desníveis tão expressivos. O Itaimbezinho, por exemplo, chega a aproximadamente 720 metros de desnível e apresenta um dos registros mais representativos dessa evolução.
Portanto, os cânions não surgiram em um único evento. Eles representam o resultado de uma longa combinação entre vulcanismo, movimentos geológicos, erosão e ação contínua da água.
Quais são os principais geossítios do território?
Os geossítios são locais que apresentam valor científico, educativo ou turístico relacionado à geodiversidade. Embora os grandes cânions sejam os exemplos mais conhecidos, o patrimônio regional vai muito além deles.
O Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul, possui cerca de oito quilômetros de extensão. De seus pontos elevados, é possível observar as escarpas da Serra Geral e, quando as condições de visibilidade colaboram, parte da planície costeira.
O Cânion Itaimbezinho pode ser contemplado pela parte superior ou conhecido a partir de sua porção interna. A Trilha do Rio do Boi, acessada por Praia Grande, avança pelo interior do cânion entre paredões, mata e trechos pelo leito do rio.
Também em Praia Grande, o Cânion Malacara apresenta um vale mais aberto. Sua trilha molhada acompanha o rio até o Poço da Figueira, permitindo observar seixos, paredões e rochas vulcânicas ao longo do percurso.
Em Jacinto Machado, a Trilha do Tigre Preto percorre parte do interior do Cânion Fortaleza. Já municípios como Morro Grande e Timbé do Sul possuem cachoeiras e paleotocas, estruturas subterrâneas associadas a animais pré-históricos, incluindo antigas preguiças-gigantes.
Na área costeira, Torres acrescenta outro conjunto de formações ao território. O Parque Estadual de Itapeva, o Parque da Guarita e o Morro do Farol ajudam a demonstrar a relação entre dunas, afloramentos rochosos, praias e o processo de formação do litoral.
A relação oficial de atrativos e suas características pode ser consultada na página de geossítios do Caminhos dos Cânions do Sul.

Por que Praia Grande é uma das principais bases para conhecer os cânions?
Praia Grande, em Santa Catarina, está localizada junto à parte baixa das escarpas da Serra Geral. Essa posição permite acessar trilhas que entram pelos vales e chegam ao interior de algumas das formações mais conhecidas da região.
A cidade serve como ponto de partida para a Trilha do Rio do Boi e para o Cânion Malacara. Além disso, oferece acesso a experiências que apresentam a paisagem por perspectivas diferentes, como voos de balão, passeios de quadriciclo, roteiros de UTV, cavalgadas e atividades em veículos 4×4.
Enquanto as trilhas realizadas no alto permitem observar a dimensão dos vales, os percursos iniciados na parte baixa aproximam o visitante dos rios, das rochas e dos paredões. Assim, as duas formas de exploração se complementam.
Essa variedade também favorece roteiros para diferentes perfis. Algumas pessoas procuram caminhadas mais longas e desafiadoras. Outras preferem contemplação, atividades de aventura ou experiências panorâmicas.
O que muda quando a visita é orientada pelo geoturismo?
O geoturismo busca aproximar o visitante da história da paisagem. Em vez de apenas chegar a um mirante ou completar uma trilha, a pessoa passa a entender o que observa durante o percurso.
As camadas dos paredões revelam diferentes derrames vulcânicos. Os seixos encontrados nos rios mostram como a água transporta e transforma as rochas. As falhas naturais ajudam a explicar o caminho seguido pela erosão. Além disso, as paleotocas registram a presença de animais que viveram na região há milhares de anos.
A experiência ainda envolve a história das comunidades. Rotas de tropeiros, modos de vida rurais, conhecimentos indígenas, gastronomia e tradições de imigrantes fazem parte da identidade local.
Por isso, conhecer o geoparque também significa valorizar condutores, hospedagens, produtores, restaurantes e empreendimentos estabelecidos no território. O turismo passa a colaborar diretamente com a economia regional e com a preservação dos saberes locais.

Como conhecer os cânions com segurança e responsabilidade?
Cada atrativo apresenta condições específicas de acesso. Distância, dificuldade, travessias de rios, mudanças climáticas e regras das unidades de conservação precisam entrar no planejamento.
Antes da visita, é importante verificar a previsão do tempo, os horários de funcionamento e a necessidade de ingresso, reserva ou acompanhamento profissional. Alguns roteiros exigem ou recomendam a presença de condutores cadastrados, principalmente quando atravessam rios ou avançam pelo interior dos cânions.
Também é necessário respeitar a capacidade de visitação, permanecer nas áreas autorizadas e não retirar pedras, plantas ou outros elementos naturais. Mesmo pequenas interferências podem causar danos quando repetidas por muitos visitantes.
Nesse contexto, o acompanhamento local ajuda a escolher uma atividade compatível com o preparo físico, o tempo disponível e as condições do dia.
A Cânions Aparados reúne opções de trilhas em Praia Grande e outras experiências na região dos cânions. Entre as possibilidades estão os percursos do Rio do Boi, Malacara e Tigre Preto, além de atividades que permitem observar a Serra Geral sob novas perspectivas.
Mais do que facilitar a organização do roteiro, essa orientação contribui para que o visitante compreenda as particularidades de cada passeio e aproveite o território de maneira mais segura e consciente.
Um destino que conecta paisagem, conhecimento e comunidades
O Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul mostra que a grandiosidade da região não está apenas no tamanho dos paredões. Sua importância também aparece nas rochas, nos rios, nos vestígios pré-históricos, na biodiversidade e nas histórias preservadas pelas comunidades.
Conhecer esse território é percorrer uma paisagem construída ao longo de milhões de anos. Ao mesmo tempo, é perceber como conservação, turismo e desenvolvimento local podem seguir o mesmo caminho.
Para quem deseja explorar os cânions a partir de Praia Grande, planejar as atividades com orientação adequada permite ir além da contemplação. Cada trilha, vale ou mirante passa a fazer parte de uma história muito maior, que continua sendo escrita entre a serra e o mar.